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Cotidiano e Ciência


Série: cotidiano

Ocaso

           Na Praça do Pôr do Sol, o homem e o seu cão observavam fixamente o horizonte. Quando foram notados pela primeira vez, eles causaram certa estranheza pelo jeito curioso como se postavam na praça. Ninguém os via chegando nem deixando o local. Porém, a imagem de estranhamento que os freqüentadores habituais tinham dos dois foi esmaecendo até passar despercebida. Com o tempo, parecia que homem e cão sempre ali estiveram fazendo parte do cenário junto aos bancos, arbustos e pinheiros.          

            O cachorro não era de raça, mas também não se podia dizer que pertencia à classe dos vira-latas; era astuto e tinha uma certa aparência que lembrava os coiotes. Porte médio, sua pelagem era lisa e acinzentada, nele se destacando as orelhas, as patas e o focinho que eram negros. Postado ao lado direito do homem, sempre com a cabeça entre as patas mantinha os olhos bem abertos, quieto, olhando para onde o homem olhava.

O homem tinha cabelos grisalhos, os olhos fundos, castanhos e circunspectos, encravados na face vincada, indiciando talvez um passado marcado pelo Sol e vida ao ar livre. Suas rugas eram como linhas de tempo, todas remetendo a algum lugar do seu passado.

Duas reflexões preocupavam o homem. Uma era sobre a circularidade e a linearidade do tempo. Porque aos inúmeros fatos e fenômenos que se repetiam – afinal, não estava o Sol a se pôr sempre ao final de todo dia? -, se contrapunha um outro tempo que atuava como uma seta encaminhando tudo em uma só direção até o ponto de não retorno, irreversível.

Outra dizia respeito ao tempo cosmológico e biológico. O tempo cosmológico, resultado da evolução cósmica iniciada a bilhões de anos, é infinito. As estrelas morrem, outras nascem e o universo se renova constantemente. Nesse turbilhão, nosso destino foi habitar um planeta que é um grão de areia na imensidão do Universo. A existência da vida terrestre, também é fruto da aleatoriedade e da evolução, mas finita, dependente de hipóteses diversas, como por exemplo, enquanto durar o combustível solar. Buscar outros planetas onde a vida seria aprazível conspira contra o tempo da existência humana. Assim - pensava o homem - não há ponto de fuga, somos eternos prisioneiros em nosso pálido ponto azul.

Todo fim de tarde, via-se o homem seguido pelo cão, situação essa que não aborrecia o homem, e ao contrário, desse costume nascia uma grande afinidade entre eles.

            Naquele verão, ambos sempre no mesmo banco e de frente para o poente, observavam um ponto brilhante que parecia ir sendo puxado pelo Sol em seu mergulho no horizonte. Muitos na praça exaltavam - “Que bela estrela”! - se referindo ao ponto brilhante que aparecia naquelas tardes e que era o planeta Vênus, a estrela vespertina, como os antigos o chamavam.

            Quando surgia a noite e o lugar aos poucos ia se esvaziando, os dois continuavam na praça. É fato que a visão noturna da cidade não era mais a mesma, eclipsada pela poluição e pela intensa luminosidade da metrópole paulistana. Mesmo assim, homem e cão não se importavam e ficavam esquadrinhando o firmamento apinhado de estrelas. Para onde quer que aquela introspecção os levasse, podia-se notar que não se tratava apenas de um entretenimento mental.

Longe de conhecerem o passado do homem e do seu cachorro, aqueles que de início os observaram com visível interesse fizeram especulações. Alguns sugeriram ser ele um homem do campo, um migrante, que agora usufruía dos encantos existentes em uma cidade grande.

Uns poucos suspeitaram que o homem possuía o perfil de um astrônomo. “Quanto tempo de sua vida, na solidão das noites, esse pesquisador teria dedicado a perscrutar os mistérios do Universo?”, indagaram.

Por outro lado, outros tantos disseram com certeza tratar-se de um místico que aproveitava a tranqüilidade do lugar para delinear mapas astrais e dar vazão às suas crendices.

Que sentimentos poderiam provocar no homem essas opiniões tão contraditórias? E o que se podia dizer do seu fiel cão?

Alheios às diferentes opiniões, homem e cão continuavam na praça e seguiam acompanhando o ciclo das estações. No outono, no final da temporada das águas, Vênus não era mais visto à tarde, aparecendo antes do nascer do Sol como ‘estrela d´alva’. Ao outono seguia-se um longo um inverno, seco, que deixava a praça empalidecida. Nesse período a presença dos visitantes diminuía, limitando-se aos insistentes. Mas, quando a primavera chegava com força e devolvia a aparência florescida, as pessoas iam retornando e tomando conta do lugar novamente.

Num sábado no início do verão seguinte, quem chegou à praça experimentou uma estranha sensação, como se algo estivesse fora do lugar, mas não atinaram com o motivo. Tudo parecia estar como antes: os fotógrafos clicavam, os desenhistas preparavam seus esboços, alguns liam, enquanto outros simplesmente aproveitavam o calor para ganhar uma cor. Nesse dia até uma trupe teatral apresentava um esquete. Mesmo aqueles que estavam ali pela primeira vez compartilhavam da inquietude geral. Sem que pudessem explicar, nesse entardecer ninguém deixava a praça. Talvez pressentissem e esperassem algo  acontecer.

Então aconteceu. Quando o Sol desceu no horizonte e a noite foi chegando, ouviu-se um som agudo, longo e estridente. Instantaneamente, os olhares se voltaram para local de onde vinha aquele lamento e puderam observar o cão em pé sobre o banco, cabeça levantada, as orelhas eriçadas, uivando como um velho lobo. Com os olhos bem abertos o cão olhava para onde o homem antes sempre olhava. Somente então todos perceberam que o homem já não se encontrava mais ao lado do cão.

Lelo Néspoli

 

 



Escrito por Lelo Néspoli às 11h49

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