Séire: ciência 
Narrador (N) – Hei vocês dois! Que cantoria é essa? Régua (R) – Olha Compasso, quem finalmente apareceu: o narrador! Soube que ele andava cochilando, não dando bola para conversas. Compasso (C) – Você conhece aquele ditado, quem é vivo sempre aparece, pois então... N - Pois é, estou ligado. Sei de tudo o que se passa, por isso, não me subestimem. Na verdade, acho que vocês estão é com saudade... R - A palavra correta é decepcionados.... C – E desiludidos... N – De qualquer forma vocês estão exprimindo um sentimento de tristeza ou de ausência, como se algo que tivesse acontecido anteriormente não voltasse mais... R – Mais ou menos... C – Na verdade falamos de algo que era muito utilizado e não é mais. Acho que daqui a alguns anos estaremos relegados aos museus... R – Esse algo somos nós, a régua e o compasso... N – Então é isso? R – Pois então, sr. Narrador, faça uma pesquisa e veja quantas pessoas ainda têm um compasso em suas casas! C – Eu vou mais longe. Pesquise quantos estudantes ainda aprendem a utilizar a régua e o compasso... R - Para resolver problemas geométricos, é claro. N – O que vocês têm que entender é que aparecem novas tecnologias que substituem processos antigos... R – Como os computadores, com seus softwares que tudo resolvem... N – Claro, tudo se torna mais rápido. Quem se utiliza hoje da régua de cálculo, ou quem escreve em uma velha máquina Remington? Elas estão em museus e contam uma bela história. C - O Narrador está filosofando... N – O que estou querendo dizer é que vocês jamais perderão a importância para a História das Ciências. R – Que tal deixarmos o Narrador de lado... C – E curtirmos sozinhos a nossa solidão? R – Então... C – E pensar que temos a mesma origem, hein Régua? R – Sim. O mesmo cordão umbilical... C – Ei Régua, não exagera... R – Está bom, vamos dizer então que nascemos de uma mesma corda. C – Melhorou, mas é bom explicar que na Antiguidade as medições inicialmente eram feitas utilizando-se uma corda. R – Para medições de comprimento ou traçar retas era utilizada a corda esticada.... C – Eis a régua... R – E a mesma corda também era utilizada para fazer o círculo. Uma pessoa fazia dois nós, um em cada extremidade da corda, depois fixava um dos nós no terreno... C - E segurando na outra extremidade, mantendo a corda esticada, traçava a circunferência ao redor do primeiro nó... R - Eis o compasso... C – Sempre estávamos juntos, na mesma corda... R – Até que alguém complicou tudo e nos separou, criando dois instrumentos: a régua e o compasso... C – Complicou nada, a idéia era facilitar e aperfeiçoar as construções. Os dois instrumentos, separados, facilitaram a medição de comprimentos e ângulos de uma forma mais detalhada. R – Mas, mesmos separados, continuamos andando juntos resolvendo problemas de geometria... N – Aí é que está Régua e Compasso. Percebam como o desenvolvimento científico e tecnológico é inevitável. R – Xi, o narrador está ouvindo, vamos falar mais baixo! C – Não me recordo se fomos inventados pelos egípcios ou pelos gregos. Poderíamos perguntar ao narrador, ele que sabe tudo... R – Acho que isso não é relevante, vamos continuar. C – Você está lembrada da frase gravada na porta de entrada do Templo de Platão: “ACESSO PERMITIDO SOMENTE A GEÔMETRAS”. R – Sim, recordo. Os geômetras eram tão importantes que se dizia que estavam próximos aos deuses... Essa era a época em que eles tentavam resolver os três grandes problemas da geometria, atualmente conhecido como os três problemas clássicos da Antiguidade. C – Bons tempos! Era a época em que os geômetras só concebiam a resolução de problemas de geometria pela utilização de régua e compasso. R – Puxa, apenas três problemas de geometria. E levou quase dois mil anos para se provar que eles eram insolúveis. C – Utilizando-se régua e compasso... R – A trissecção de um ângulo era um deles. O problema proposto consistia em dividir um determinado ângulo em três ângulos iguais. C – Parece tão fácil.... R – Tente. Pegue a régua e o compasso... Já aviso, não vai conseguir... C – Se não vou conseguir, não vou nem tentar... R – O problema mais famoso ficou conhecido como quadratura do círculo. Consistia em se construir um quadrado cuja área fosse igual à área de um determinado círculo. C – Impossível, está na cara! Vejam como fica no desenho:

É só olharmos as áreas dos quadrados inscrito e circunscrito ao círculo. R – Agora percebo. O quadrado de dentro tem a área menor que a do círculo enquanto o quadrado de fora tem uma área maior... C – E o terceiro? R – Ah, o terceiro nos leva à peste que se abateu sobre Atenas e dizimou grande parte da população... C – Peste?! O que isto tem a ver com geometria? R - Conta a tradição que o oráculo de Apolo predisse que a peste somente seria eliminada quando o altar de Apolo, que era um cubo, fosse duplicado... 
C – Duplicar um cubo só com régua e compasso??!! R – Os atenienses pensaram que para duplicar o cubo bastava duplicar as arestas. O problema é que fazendo assim construíram um altar cujo volume era oito vezes maior do que o anterior e não o dobro. C - É, pelo visto não conseguiram a duplicação. R – E a peste não foi eliminada... C – Mas um dia foi... R – Porém o problema permaneceu insolúvel... C – O que também é insolúvel é esse nosso saudosismo... R – Mas, o que nos conforta é que apesar de tudo a geometria está presente em todo o Universo. C – Não só uma geometria, várias delas e algumas muito complexas... N – Muito bem meus pequenos geômetras, mas tem um outro problema... R – Por falar em complexidade, olha o narrador aí de novo... Está na hora de traçarmos nosso caminho pelo mundo... C – Então vamos lá. Meus caros, aquele abraço... Lelo Néspoli
Escrito por Lelo Néspoli às 10h42
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