Contos

 O dia em que os    hermanos bolivianos   "invadiram" a Mooca   
 Ocaso
 O chaveiro de Santa   Cecília
 Conto Fúnebre
 Script-door
 O ovo ou a galinha?
 O homem que gostava de   relógios
 Uma conversa radioativa
 Diálogo entre Plutão e   Júpiter
 A Régua e o Compasso
 Felicidade

        Links
 Livro em Aberto
 Foto pinhole
 Caleidoscópio

 
 
Cotidiano e Ciência


Série: cotidiano

O chaveiro de Santa Cecília

            Seu nome era Abelardo. Sua profissão era chaveiro, uma profissão familiar iniciada pelo bisavô.  Quando o pai se aposentou e quis fechar o negócio propôs ao Abelardo que aproveitasse sua habilidade com as mãos e que fosse estudar medicina. Daria um grande cirurgião.

            Entretanto Abelardo adorava aquele negócio, que não prescindia de muitos equipamentos e nem muito espaço. Manejar o torno copiador de chaves, a morsa, o esmeril, as chaves de fendas e a lima, soava para Abelardo como reger uma sinfonia. Era uma maneira de encontrar a perfeição, igual sentimento devia sentir o lapidário ao polir um diamante ou quando um jardineiro combinava flores, arbustos e canteiros ao cuidar de um jardim.

Quando assumiu o negócio da família fez algumas modificações de ordem prática. Primeiro, mudou o estabelecimento para um novo local, a Rua das Palmeiras, porque essa era uma rua comercial, de mais movimento. Logo que se instalou começou a atender vinte e quatro horas por dia e também a domicílio. Também inovou criando uma página na Internet. Não demorou muito para o negócio crescer e, junto com ele, a fama do chaveiro. Agora Abelardo trabalhava ouvindo suas óperas preferidas, fato que de início desgostou ao pai, porque ele achava que lazer e trabalho juntos não combinavam. Mas os negócios afirmavam o contrário. E quando o pai se lamentava por Abelardo não ter seguido seu conselho e mudado de profissão, ele retrucava dizendo que esse trabalho também era uma forma de servir a sociedade.

Para os clientes, o que diferenciava Abelardo de outros chaveiros era a sua enorme habilidade, opinião essa generalizada. Porque, apesar do processo de produção ser um sistema semi-automático, era no ajuste dos detalhes que ele se distinguia dos demais. Nunca houve reclamação da clientela sobre cópias mal feitas e atendimentos fora de prazo ou inadequados.

            A tecnologia aperfeiçoou os sistemas de segurança: residenciais, automotivos e os sistemas que em geral  utilizam segredos. Abelardo se especializou e se atualizou em todas essas inovações. Tanto é que ele sempre era chamado para resolver casos intrincados de segurança. Engenhoso, criou um kit para cada situação de trabalho. O caso mais lembrado é o da tesoureira que ficara presa em um cofre bancário em um dia de apagão. Abelardo chegou com o kit-banco e abriu o cofre num piscar de olhos. Depois desse feito ficou conhecido em Santa Cecília como o hacker das fechaduras.

Tudo ia às mil maravilhas até o dia em que Abelardo foi levado de madrugada para a delegacia do bairro sob suspeita de cumplicidade num crime: naquela noite havia aberto as algemas de um perigoso meliante que havia fugido de um camburão. Abelardo declarava que, assim como os médicos fazem um juramento de atender pacientes quaisquer que sejam as circunstâncias, os chaveiros têm o compromisso ético de abrir portas e desvendar segredos sempre que solicitados. "O resto é hipocrisia” - rematou Abelardo. Sua explicação não convenceu. “Que porra de ética é essa, chaveiro de merda?” – reagiram os policiais. Trancafiaram Abelardo a sete chaves para colher seu depoimento no dia seguinte, na presença do delegado.

Logo de manhã, policiais atônitos não encontraram Abelardo em nenhuma das dependências da delegacia. Ninguém soube explicar como o preso conseguira sumir, tal qual éter que se esfumaça no ar.

A oficina de chaves foi vistoriada e lacrada. Ninguém no bairro sabia dizer do paradeiro de Abelardo.

Os clientes pesarosos não puderam mais contar com a destreza de Abelardo. A solução foi recorrer aos serviços inéditos oferecidos por um novo site que se denominava Chaveiro Virtual.

Os clientes estão satisfeitos, e segundo eles os serviços prestados não ficam nada a dever aos realizados anteriormente por Abelardo. Paradoxalmente, via on-line, esses trabalhos ficaram até melhores.

Já a polícia, mesmo com o empenho reduzido, continuou procurando Abelardo. Um dos investigadores, ao ouvir falar do novo chaveiro virtual, desconfiou que Abelardo pudesse estar por trás do novo negócio. Mas, segundo investigação feita pela polícia científica a página era baseada na Noruega.  

Definitivamente, Abelardo foi dado como desaparecido e seu caso arquivado como sem solução. Mas alguns dos antigos clientes juram ouvir algumas vezes um som de ópera vindo da antiga loja.

Lelo Néspoli

 



Escrito por Lelo Néspoli às 18h46

[ cont@to
]



[ página principal ]