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Cotidiano e Ciência


Série: cotidiano

CONTO FÚNEBRE

 “Só vamos ter sossego depois da morte” – afirmava Joaquim.

Joaquim, João e Jonas toda sexta-feira se encontravam no bar restaurante Estadinho para o encontro semanal dos três irmãos. Joaquim e João tinham quase a mesma idade e uns quinze a mais do que Jonas.

Todos mineiros, tinham chegado a São Paulo há vinte anos, Jonas ainda menino. Encontravam-se no centro da cidade porque o lugar ficava eqüidistante de onde cada um morava, além, é claro, de saborearem o famoso sanduíche do Estadinho.

“Mas Joaquim” – questiona Jonas – “você nem sabe o que vem depois da morte”.

“Eu sei de uma coisa com certeza, depois da morte, em qualquer lugar em que eu esteja não vou escutar esse barulho infernal que me atormenta vinte e quatro horas por dia”.

João, que comia calmamente seu sanduíche, interveio.

“Quanto ao barulho você tem razão, mesmo nas horas em que a cidade tinha tudo para ficar mais silenciosa a gente começa a ouvir sons que não ouvíamos durante o dia. O chilrear da passarinhada à noite toda é um deles, é um porre!”

“Parece que eles nunca dormem, esses desgraçados!” – complementa Jonas – “Mesmo quando eles não piam eu os ouço. Quando estou na cama à noite ainda persiste nos meus tímpanos um som de bigorna; a culpada é uma araponga que vivia perto do Colégio onde eu estudava e que, com seu trinado, martelava nossos ouvidos durante todo o tempo das aulas”.

China, ao trazer uma cerveja, ouviu João dizer de chofre:

 “Mas me digam, vocês conhecem alguém que na calada da noite não sinta um zumbido no ouvido?”

“Imagine, achar um ouvido sem zumbido nessa cidade seria uma raridade. Hei China!...”

China era do Nordeste. Tinha começado a trabalhar como chapeiro e fazia um bom tempo que tinha sido promovido a atendente.

“Hei China?!” – continuou esbravejando Joaquim – “não basta essa cidade ser uma caldeira e você ainda nos traz uma cerveja morna? Desce uma estupidamente gelada, pô!”.

“Bem lembrado, essa cidade virou mesmo uma sauna a céu aberto” – emenda Jonas - “Durante o dia um calor infernal, um Sol de rachar concreto”.

“E à noite temos o dilema da janela. Aberta ou fechada? O barulho ou o calor, o que escolher. Eis a questão” – brinca João.

 China que agora trazia uma nova cerveja se meteu na conversa, – “Vocês reclamam de barriga cheia. Na região de onde eu vim, faz tanto calor, mas tanto calor, que alguém apelidou o lugar de ‘as labaredas de Lúcifer’”.

“Eu não vejo a hora de chegar o inverno. Mas China, há quanto tempo você chegou nessa megacidade?”

“Xi! Perdi a conta, quando cheguei já tinha passado o tempo da garoa, mas peguei muito frio nessa cidade. Você falou do inverno, querem saber? Também não existe mais aquele inverno de trincar os dentes...”

“Eu também detesto calor” - retruca o irmão mais novo – “por isso de vez em quando pego um cinema para ficar me refestelando no ar condicionado”.  

João, animado, emenda uma conversa na outra e agora começa a falar do excesso de luz existente na cidade.

“E o que dizer da claridade? Essa cidade também não escurece, até parece que a noite virou dia. Sabem de uma coisa? No dia do blecaute eu fiquei horas debruçado na janela contemplando aquela escuridão toda”.

“Pois é, precisa-se cada vez mais de luz para inibir a violência...”

“O que aconteceu com você Jonas, deu agora para filosofar?”

Joaquim tenta voltar ao assunto anterior.

“Por isso é que eu vou repetir o que eu disse antes, e acho que nisso vocês estão de acordo, não vamos ter sossego em vida”.

Conjecturando sobre as ultimas palavras do irmão, João simplifica a discussão.

“Podemos pensar em retornarmos para nossa Minas Gerais, para nossa tranqüila terrinha”.

“Ora manos, vocês bem sabem que isso aqui, essa cidade, é uma teia. Podemos nos mover de lá para cá, daqui pra lá, mas quando se cai nela dificilmente se escapa. Não há retorno” – filosofa Jonas.

João acaba concordando - “Pensando melhor você tem razão, ao criarmos raízes fomos enredados. No mais, temos que nos conformar. Levar a vida do jeito que dá”.

“Por tudo isso é que eu venho há muito refletindo,” – insistiu Joaquim – “não se espantem, além de encontrar o eterno sossego, tem uma coisa que eu gostaria de poder fazer depois morte”.

“Hei mano velho, você bebeu?”

 “Deixa disso, vocês nunca pensaram nessa possibilidade? Depois da nossa partida, podermos de vez em quando ir visitar o cemitério, contemplar o túmulo, espiar a lápide, e também dar umas bandolas por aí sem ser visto etc.”

“Isso só é possível na literatura, até parece que você andou lendo Saramago...”.

“Que nada Jonas, isso é só vontade intuitiva, nascida do desassossego”.

João que prestava atenção no diálogo dos dois, com grande excitação, interrompeu a conversa.

“Vocês acabam de me dar uma ideia. É o seguinte, porque não deixamos tudo arranjado antes da nossa morte? O que vocês acham?”

“Hei João, que ideia mais doida é essa?” – replica um atônito Jonas.

“Ora manos, a gente pode organizar o futuro ainda em vida. Assim evitamos os dissabores dos preparativos para quem fica”.

Os dois irmãos que ainda estavam assimilando o que João havia dito, interpelaram.

“Qual seria a vantagem disso?”

“A grande vantagem é que a coisa sai do nosso jeito”.

“Deixa-me ver se entendi suas maquinações. Você já pretende deixar tudo pronto para as nossas cerimônias fúnebres?”

“Não chego a tanto Joaquim. Apenas que a gente compre um terreno no cemitério, mande fazer uma lápide...”

“E depois tome posse...?”

Jonas sorrindo, continua:

“Ora Joaquim, só podemos tomar posse depois da morte. O que a gente pode fazer é de tempos em tempos visitar o local e ficar imaginando as pessoas que lá estariam nos pranteando. Vai ficar parecido com aquilo que você estava dizendo a pouco, não?”

“Acho que vocês estão captando a ideia” – explicou João – “Querem ver? Vamos começar primeiro com os dizeres da lápide, depois pensamos no túmulo e no cemitério... Hei China, me arranja uma caneta!”.

João pegou um guardanapo e nele começou a escrever, enquanto os outros dois aguardavam pacientemente. Minutos depois – “Vejam no que pensei”. Os dois, ainda não inteiramente convencidos, olharam, leram e depois de Jonas fazer algumas argumentações, aceitaram.  

João prosseguiu, sugerindo os próximos passos.

“Agora falta comprar o terreno, encomendar a lápide e quando ela estiver pronta, colocar no túmulo”.

Não ficaram surpresos com a objetividade do irmão. Matutaram entre um gole e outro, até que decidiram. Joaquim deu a palavra final.

“Pode ser uma boa ideia. Mas desde que tudo aconteça em um cemitério central, para facilitar a vinda dos visitantes”.

“Então, um brinde para selar o acordo” – arrematou Jonas tilintando os copos.

No dia seguinte se encontraram para dar seguimento ao plano.

Quando a lápide ficou pronta foram até o cemitério e a instalaram no local do túmulo.

Desde esse dia não houve um dia de finados em que os três irmãos, satisfeitos, não iam juntos ao cemitério.

“Que sensação boa, manos. Sempre que estou aqui, ao mesmo tempo em que observo o túmulo, tenho a sensação de estar lá dentro” – afirmou Joaquim.

“Eu sinto algo parecido, sinto-me lá dentro observando tudo o que se passa aqui fora” – sussurrou Jonas.

“Essa era a idéia, acho que conseguimos” – finalizou João.

Muitos dias de finados se passaram.

Primeiro morreu João, depois Jonas, um ano depois foi a vez de Joaquim. Quem visita o cemitério encontra no túmulo dos três irmãos a lápide de granito, grafada com letras douradas em relevo:

 “Aqui jaz três irmãos que enfim encontraram o frio, o silêncio e a escuridão”.

 Lelo Néspoli

 



Escrito por Lelo Néspoli às 11h28

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