Série: cotidiano SCRIPT-DOOR Naquela época não havia o MSN, blogs, Twitters e outras formas de relacionamento que hoje a Internet permite. Escrever e ler é uma arte antiga. Bem antes de Gutenberg já se escrevia e se lia. Hoje se lê defronte aos computadores, sentado em coletivos, na cama para puxar o sono e em pé também. Tanto é que na cidade mineira de São João Del Rei existe o Jornal do Poste que há mais de cinqüenta anos é afixado nos postes da cidade. Eu leio qualquer coisa: uma das minhas curiosidades é ler escritos em portas de banheiros, uma forma centenária de comunicação entre desconhecidos. As mensagens variam conforme o local onde as portas se encontram, mas todas têm algo em comum: expõem pensamentos, segredos, desejos, agressividade ou simplesmente desabafos. Um dia encontrei em uma delas um script que era uma poesia. Logo me chamou atenção, não só porque fora escrito a lápis, mas porque o poema tinha a forma de redondilha e terminava com os dois últimos versos afirmando “estou desesperada” / “e não sei o que faço”. Assinava Guta. Eu não apenas fiquei sugestionado e impressionado pelos dois últimos versos, mas também porque senti que o poema fundia ficção e realidade. Entretanto, naquele instante não soube explicar a razão. “Ela teria escrito em código, pensei?” Apaguei o poema e em seu lugar, também a lápis, escrevi. “Estou disposto a ajudá-la. Zé Cruviana”. Semanas se passaram. Havia me esquecido daquele episódio até o dia em voltei ao banheiro. No alto da porta uma nova redondilha que trazia ao final um E.T.: “Que bom que v. escreveu Zé. O que quer dizer Cruviana?”. Fiquei surpreso pela correspondência. Dessa vez escrevi, também sob forma de prosa, explicando sobre a origem do meu nome, que cruviana é um vento intenso, gélido e cortante, característico das madrugadas do nordeste brasileiro. Que o apelido me havia sido dado pelo meu pai porque no momento do meu nascimento, segundo ele, eu cheguei bem de mansinho, de madrugada, justo na hora do cruviana. A partir desse dia passamos a trocar script-door. Curiosamente nossas mensagens ficavam incólumes. Hoje ainda penso que efeitos elas poderiam ter provocado nos outros possíveis leitores de portas. Pelos versos de Guta fui deduzindo que ela era morena e que tinha altura mediana. Achava-se muito magra, tinha os olhos castanhos, mas gostaria que eles fossem negros como duas jabuticabas. Ela adorava dançar, mas ultimamente preferia ficar em casa e assistir a um bom filme. Na praia, quando olhava para o mar se imaginava no infinito. À medida que eu submergia nos seus poemas, o desejo de encontrá-la foi crescendo. Ansiava por esse lance se concretizar. No entanto Guta afirmava que ainda não estava preparada, mas que com certeza essa ocasião não tardaria a chegar. Que eu tivesse paciência. Nas minhas reflexões eu pensava se não seria excesso de timidez dela, ou se talvez ela apenas se contentasse com o encanto das nossas prosas grafadas na porta. Semana após semana continuamos proseando, embora suas redondilhas agora contivessem menos estrofes. Afirmava que gostava de “ouvir” meus versos, que às vezes soavam como cantigas de ninar. Ultimamente Guta mais perguntava do que dizia. De repente seus scripts sumiram. No início estranhei, mas depois me conformei achando que ela poderia afinal ter se entediado e encontrado uma outra porta com quem conversar. Eu continuava utilizando aquele banheiro como uma forma de reviver um passado não muito distante. No entanto o meu último poema continuava grafado na porta e isso desfazia dia a dia minhas ilusões. Porém, um dia senti minhas esperanças redobrarem. Na porta, no lugar do meu poema não havia redondilhas, mas apenas um script curto e grosso: “Zé, telefone para Guta”, seguia um número. Indescritível a agitação interior que me envolveu. Depois de tanto tempo ela mudara de ideia? Surpreso pela forma da mensagem, não consegui conter as emoções e não tive coragem de telefonar de pronto. Demorei alguns dias tentando controlar a ansiedade e elaborar uma forma de entabular uma conversa em tempo real com Guta. Quando finalmente liguei, uma voz rouca atendeu. Era Isadora, melhor amiga de Guta. Fora ela quem havia postado o último script. Contou-me que Guta havia falecido há dois meses no Emilio Ribas. Que ela, Isadora, havia ficado ao lado de Guta todo o tempo. Entre outras coisas também me falou do arrependimento da Guta por não ter facilitado um nosso encontro. Relatou-me, com a voz, agora contida, que a última frase dita por Guta foi que ela estava começando a sentir um friozinho crescente na espinha, e que era o cruviana chegando. Terminou, afirmando que agora ela finalmente havia compreendido o que o poeta Zé um dia tentou lhe dizer. Conversamos mais um pouco. Desligamos. De onde eu estava eu ouvia o som vindo das rotativas que imprimiam um antigo Diário. Angustiado, ali fiquei, pensando que para mim não faria a menor diferença quais seriam as manchetes do dia seguinte. Lelo Néspoli
Escrito por Lelo Néspoli às 16h29
[ cont@to
]
[ página principal ]
|