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Cotidiano e Ciência


Série: cotidiano

FELICIDADE

“Nesse último ponto o doido tem razão,

e parece ser um doido com juízo”.

Machado de Assis

 

Caro leitor, esse é um caso antigo que poderia ser chamado de infelicidade, inadimplência ou infidelidade...


Sexta-feira, agência bancária da rua São Bento. Tarde de calor, o  sistema fora do ar e o ar condicionado em reparo. No ar apenas extratos, contas a pagar, duplicatas e cheques que voavam em leques nas mãos das pessoas enquanto aguardavam a vez. As filas em caracóis ampliavam o burburinho e avançavam sempre sem pressa, como serpentes em busca da presa... Eu tentava pagar a prestação, atrasada em três meses, de um dois dormitórios. Último dia... depois prego!

Emaranhado em pensamentos, quase não percebo um leve toque às costas, depois outro. Viro-me, e quem vejo? Botelho! Sim, Botelho, meu velho e melhor amigo. Urros de satisfação e abraços demorados selaram o reencontro após seis anos de ausência.


Conheci Botelho numa festa de calouros. Tínhamos algo em comum, ambos éramos do interior paulista, ele de Taubaté eu de Barretos. Morávamos na mesma uma república e levávamos a vida participando de congressos estudantis, das madrugadas paulistas e das tardes de clássicos no Pacaembu; como a corda e a caçamba. As férias de julho nós passávamos no interior e as de verão, buscávamos as praias. A fala arrastada e o humor eram seu cartão de visitas. Ele estudava Matemática e eu fazia Ciências Sociais.

Tínhamos visões diferentes acerca do mundo, talvez por isto nos déssemos tão bem. Nunca nos interessamos pela mesma garota. Achava que sua concepção de relacionamento amoroso diferia da minha. Na linguagem de hoje ele preferia ficar a ter uma ligação prolongada. Quanto a mim, vivia querendo encontrar meu par, o que acabou acontecendo em uma das nossas saídas. Chamava-se Felicidade, paixão à primeira vista. Não nos largamos mais. Aceitou vir morar comigo e sua chegada não modificou o dia-a-dia da república. “Hei Barretos” – como me chamava -, “nada vai mudar nosso ponto de equilíbrio, apenas ele será deslocado para um lugar imaginário entre nós, como o baricentro em um triângulo” -, afirmou Botelho, que invariavelmente utilizava a lógica-matemática nas conversações.

Vivíamos a vida. Até que houve a separação. Botelho graduou-se e especializou-se Matemática Aplicada e logo depois mudou para o Rio de Janeiro para trabalhar em Furnas. Nessa mesma época mudamos para um novo apartamento, que pagávamos às duras penas. No ínicio sentimos a ausência de Botelho. Nossos contatos que eram frequentes foram rareando, mas nunca perdemos completamente a comunicação.

Tempo de dias doidos, difíceis. Os salários mal davam para a prestação. Eu trabalhava em pesquisas sociais e Felicidade dava aulas e fazia pós-graduação na PUC do Rio, ficando ausente de São Paulo duas vezes por semana. Projetos foram sendo adiados: filhos, minha pesquisa acadêmica sobre prostituição infantil e além de tudo nossas férias não coincidiam.


A presença de Botelho em São Paulo naquele dia, naquela agência bancária, me causara imensa alegria, um grande motivo para comemorações. Havia nele, porém, um quê de inexplicável. Antes que pudesse propor um mata-saudades, foi dizendo que viera me buscar a pedido de Felicidade e que eu precisaria ir encontrá-la com a máxima urgência. Não havia mais tempo. Felicidade? “Que história é essa de urgência. Como e onde a encontrara?” - perguntei. Repetiu que não havia tempo para explicações, que o caso era realmente complicado ou delicado — não me recordo exatamente o termo que utilizou — e que a Felicidade estava me esperando agoniada em frente ao Cine Copan. “Vamos logo, tudo vai ser esclarecido” - retrucou. Aquela situação toda me soava muito estranha, entretanto paralisado e atordoado pelo efeito surpresa por esse encontro e faltando quinze minutos para o banco fechar, não atinei para os desdobramentos que se seguiriam. Confiando nos apelos do amigo, mas com o sentimento de que algo dentro de mim se esvaia, decidi: “a Felicidade por um apartamento!”.

Saímos do banco às carreiras, tropeçando pelas gentes na São Bento, viaduto do Chá e depois pela lpiranga. la imaginando o cenário que iríamos encontrar: uma multidão ao redor de um corpo agonizando, ou seria um sequestro? Por que não um assalto onde ela fôra feita refém? O cérebro trabalhava a mil, sem no entanto fazer inferências entre os últimos acontecimentos. Em menos de dez minutos chegamos ao Copan. Não vi aglomeração alguma nem corpo estendido no chão. Muito menos assalto ou sequestro. Felicidade estava, contrafeita, ao lado de uma Van que os levaria ao aeroporto. “Vou-me embora com Botelho” - disse. Esbocei uma reação, um pedido de explicação. “Esse não é o momento propício Barreto, eu não queria viajar sem lhe dizer adeus”-, afirmou uma Felicidade angustiada, enquanto entrava na Van. “Escreveremos explicando tudo”-, afirmou Botelho, também constrangido e sem utilizar dessa vez seus chavões matemáticos. O ronco do motor, ao ser dada a ignição, ecoou como o estrondo de um estampido no peito. Fim da linha. Partiram.

Eu fiquei ali feito um varapau não querendo acreditar que em vinte minutos perdi as três coisas mais importantes da vida. Perguntava-me se existiria mesmo o maldito baricentro. Sem me dar conta fui sendo levado pela multidão, onda humana, que ao avançar provocava um murmúrio de caracol, e eu, mais do que nunca, me sentia preso a ele e sem vontade de fugir...

Lelo Néspoli

(publicado in “Contos” V.II pela

 Casa da Palavra da Secretaria de

Cultura de Santo André-SP em 1993)



Escrito por Lelo Néspoli às 15h56

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