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Cotidiano e Ciência


Série: cotidiano

O homem que gostava de relógios

à memória de Januário


 Mas não era de quaisquer relógios. Eles tinham que ter ponteiros, todos os ponteiros. O das horas o dos minutos e o dos segundos, porque ele dizia sentir em seus movimentos o pulsar das engrenagens do mundo.

O homem não era um colecionador, ele possuía apenas um antigo relógio suíço de pulso que não tirava nem para tomar banho ou dormir.

“Eh vida besta esta....” resmungava quando, curvado, tentava acertar o relógio, sozinho em seu quarto-sala.

O quarto reproduzia a sala do seu antigo apartamento. Continha a mesma estante onde ficavam a TV, seus livros, retratos e o radinho de pilha usado principalmente para ouvir jogos do Santos: “Vou assistir pelo rádio!”. Uma pequena mesa, um vaso com flores e a poltrona em que brigava cotidianamente com o relógio completavam o ambiente, um elo tênue entre presente e passado.

 

Ninguém sabia ao certo quando o homem - que era conhecido como "Velho" - começou a se interessar por relógios. Alguns afirmam que talvez fosse reflexo dos tempos de infância, quando sentia admiração pelo velho relógio de bolso do pai. As horas gravadas em algarismos romanos, a tampa protetora reluzente e a fina corrente davam o charme ao relógio. Magia e sedução eram sentimentos que o menino nutria ao observar o pai retirar o relógio do bolso, calmamente abrir sua tampa e consultar as horas. Quando tudo isso se fora ele se deu conta de que não haveria nada no mundo capaz de aprisionar o fluxo do tempo.

 

 “Ô cientista!"– como ele chamava seu neto –, "não sei o que está acontecendo com esse relógio; a TV acabou de falar que são onze e trinta do dia 10 e ele está marcando onze e vinte do dia 8!”.

“Ei Velho, qual o problema de um atraso de dez minutos, que diferença faz para você se hoje é dia 9, 10 ou 11?”.

“Vocês não me entendem. Quando acordo preciso saber em que dia estou e qual é a hora certa do dia. Eu preciso me posicionar. Tenho negócios a tratar, ir ao banco, pegar meu extrato...”.

“Mas é só me perguntar ou olhar o rádio-relógio que está no criado-mudo” – retruca o neto.

“Pô cientista, olha o rádio-relógio: está parado. E sabe o que mais? Ele não faz o tic-tac” de um verdadeiro relógio.

“Ora, Velho. O rádio-relógio não está parado, é que o marcador das horas muda somente de minuto em minuto”.

“Não tente me enrolar, relógio que é relógio tem que andar sempre, olhe bem para esse meu relógio aqui. Os ponteiros estão andando, eles têm vida e o relógio faz tic-tac... O problema é que está todo errado!”

Os dias passavam e o homem não se conformava. No final do ano, o neto presenteou o avô com um novo relógio de ponteiros, vistoso e muito preciso. Isso deixou o homem muito contente. Para estimulá-lo, a família frequentemente lhe perguntava as horas. Ele imediatamente sacudia o braço naquele movimento característico de quem olha para o relógio e respondia com satisfação. Movimento que se repetia toda a vez que ele ouvia alguma voz dizer as horas, no rádio ou na televisão.

Certo dia o neto viu o homem na poltrona debruçado sobre o relógio dizendo - “cadê a rodinha, não encontro a rodinha, não consigo dar corda no relógio...”.  

“Ei Velho, o que está acontecendo, que história é essa de rodinha?”.

“Ela sumiu, eu ia dar corda no relógio e a rodinha escapou, desapareceu, não consigo mais encontrar”.

“Mas eu não lhe disse que não é preciso dar corda nesse relógio porque ele é movido à bateria?” afirmou o neto.

“Pô cientista, não venha me enganar, que bateria que nada, todo relógio precisa de corda. Preciso dar corda no relógio senão ele vai parar. Então porque ele veio com rodinha?

" A rodinha serve para...."

"Pode parar....pode parar....vocês não sabem de nada mesmo!”

Enquanto o neto dizia que iria providenciar outra coroa para o relógio, o homem, com sua vasta cabeleira branca, o olhar perdido no relógio, continuava maldizendo os dias - “Eh vida besta... mas que vida besta  essa...".

Lelo

 



Escrito por Lelo às 15h23

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